Memórias vivas de quem construiu, dançou e preservou a maior festa junina da região Norte de Goiás. Uma festa em Porangatu que não nasceu de decreto, de edital ou de planejamento em gabinete.
Ela nasceu na terra batida da Praça da Matriz, entre as mãos de um senhor chamado Pedro Martins da Cunha e sua esposa Theodora Dias Souto, e na disposição de uma neta que aprendeu a marcar quadrilha para não deixar morrer um saber. É o Arraiá do Descoberto, hoje reconhecido como uma das maiores festas juninas do interior de Goiás — e sua história é contada melhor por quem a viveu do que por qualquer almanaque.
Foi Corina Fagundes Furtado Pereira quem primeiro colocou em palavras a semente do Arraiá. Seu avô Pedro queria passar o conhecimento de marcar quadrilha adiante, e Corina se comprometeu a aprender. Juntou as crianças da praça, começaram a ensaiar e, quase sem perceber, fizeram o primeiro Arraiá das crianças.

A festa foi iniciada aqui na Praça da Matriz com o meu avô, conta Corina.
Naquele momento, o evento ainda não tinha nome — era um encontro, uma roda, uma alegria que tomava a calçada da Cidade Velha. ouça os relatos de Corina:
A chama que Pedro Martins acendeu chamou a atenção de Fariza Nahas, coordenadora do Centro Regional da LBA, a Legião Brasileira de Assistência, órgão federal extinto nos anos 1990. Foi ela quem, nos anos 1980, organizou a estrutura, chamou entidades filantrópicas para as barraquinhas e deu à festa uma dimensão comunitária que a cidade jamais havia visto. Cada ano, uma entidade era sorteada para receber o lucro da festa — Rotary, Apae, Lions, Lar Paulo VI, Vicentinos.

Uma festa muito democrática, mesmo — das maiores autoridades do município às pessoas mais simples. O recurso era direcionado, a cidade se movia, e o Arraiá crescia junto. — Fariza Nahas
ouça os relatos de Fariza:
Quando Fariza se mudou para Goiânia, a tocha passou para Vanda Vieira, que por décadas coordenou as quadrilhas dos idosos e das crianças, chegando até 2019. Vanda guarda com emoção o que considera a essência da festa: ela trabalhava com as três etapas da vida — os idosos, as crianças e os jovens. Os ensaios aconteciam na creche do Projeto Casulo dos Canarinhos, ao lado do Casarão, antes de migrar para a Praça do Milagre. “Muitos idosos que construíram essa festa hoje já não estão mais aqui”, diz Vanda.

Por isso é tão importante preservar.
ouça os relatos de Vanda:
Ariovaldo Alves Barbosa, o Ari, dançou quadrilha na infância e, em 1981, se tornou o marcador oficial do Arraiá do Descoberto, função que exerceu com orgulho e que mais tarde passaria ao irmão Jailson. Para Ari, o crescimento da festa foi resultado de uma cadeia de generosidade: a participação das entidades beneficentes, das carroçadas pela cidade, das primeiras-damas que deram seguimento. Na sua leitura direta e sem rodeios:

O Arraiá se tornou a maior festa junina de Goiás.
ouça os relatos de Ari:
Ivan Vieira, locutor que ajudou a dar voz à festa por anos, traça com precisão a linha do tempo do evento: da praça de terra em frente à casa de dona Conducha e seu Pedro, passando pela sombra de uma mangueira em frente à igreja, até a Praça do Milagre, reformada pelo prefeito Jarbas Macedo Cunha, que construiu o redondão ao redor do Poço, urbanizou a região e plantou as árvores que hoje abrigam o público nas noites de junho.

A TV Anhanguera abraçou a causa e registrou a festa muitas vezes. Pessoas que tinham saído de Porangatu voltavam especialmente para o Arraiá — a festa havia se tornado um elo afetivo maior do que a própria distância.
Ouça os relatos de Ivan Vieira:
O Arraiá do Descoberto existe há mais de cinco décadas porque cada geração encontrou alguém disposto a passar o bastão adiante — do Pedro Martins à Corina, da Corina à Fariza, da Fariza à Vanda, de Vanda ao Ari e a todos os prefeitos, primeiras-damas e voluntários que, cada um a seu tempo, fizeram a sua parte. É cultura viva, patrimônio imaterial de Porangatu. E enquanto houver o cheiro de milho assado na Praça do Milagre, o som do marcador chamando os pares e o frio de junho descendo da Serra, o Arraiá do Descoberto vai continuar sendo o encontro que une três gerações numa só noite de festa.
Esses depoimentos fazem parte de uma série especial produzida pela Câmara Municipal de Porangatu, por meio do seu Departamento de Comunicação, com o objetivo de registrar e preservar a memória das pessoas que ajudaram a fazer nascer e crescer o Arraiá do Descoberto. Uma iniciativa do presidente da Câmara, Rafael Churuman, e dos demais vereadores, que reconhecem que a história de uma cidade não está apenas nos livros — ela vive na voz de quem a fez acontecer.
Depoimentos de: Corina Fagundes Furtado Pereira · Fariza Nahas · Vanda Vieira · Ariovaldo Alves Barbosa (Ari) · Ivan Vieira | Iniciativa: Câmara Municipal de Porangatu — Departamento de Comunicação

